Curso Políticas Linguísticas para a Interpretação e Tradução em Contextos Multilíngues

Por Thaisy Bentes e Carina Merkle

Fonte: GT Geopolíticas do Multilinguismo.

O curso Políticas Linguísticas para a Interpretação e Tradução em Contextos Multilíngues”, voltado à formação de tradutores e intérpretes de línguas de sinais, realizado de agosto de 2024 a junho de 2025, reuniu profissionais e estudantes de diversas regiões do país em uma formação on-line com carga horária de 180 horas. As atividades foram organizadas em aulas síncronas, com apoio da plataforma Moodle, e incluíram oficinas práticas de Língua de Sinais Venezuelana (LSV).

A proposta do curso surgiu a partir de uma demanda crescente observada, sobretudo, em regiões de fronteira como Roraima, onde o fluxo de migrantes venezuelanos, incluindo pessoas surdas, têm transformado as práticas de comunicação e mediação linguística. Tradutores e intérpretes que antes atuavam majoritariamente no par Libras–português passaram a lidar também com a LSV, o espanhol e diferentes combinações linguísticas — como ocorre na realidade dos Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais (TILS) em Roraima. Em outras localidades esses profissionais também enfrentam o desafio de atuar com diferentes pares de línguas de sinais não nacionais.

Formação conectada à realidade migratória

O curso foi idealizado pelo Programa de Apoio a Pessoas Surdas Migrantes (MiSordo), vinculado à Universidade Federal de Roraima (UFRR) e à Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em parceria com o Grupo de Trabalho (GT) Geopolíticas do Multilinguismo da Cátedra de Políticas Linguísticas para o Multilinguismo da UNESCO, com a Associação de Tradutores e Intérpretes de Roraima (ASSOTILS) e com o Colectivo Migrantes Sordos (MigranSor) e executado pela Universidade Estadual de Roraima (UERR).

Com mais de 100 inscritos, o curso selecionou participantes com atuação em regiões de fronteira ou em contextos com presença de migrantes. A programação do curso incluiu dez aulas síncronas, ministradas por professores de oito universidades federais brasileiras, que abordaram temas como políticas linguísticas, direitos humanos, interpretação comunitária, migração e acesso à justiça. Além disso, foram realizadas oficinas práticas de LSV, ministradas por professores surdos venezuelanos.

As oficinas de LSV foram um dos destaques da formação, professores surdos migrantes venezuelanos apresentaram sinais do cotidiano, articulando a língua de sinais com o espanhol oral e escrito. A metodologia das oficinas, baseada na experiência linguística dos próprios docentes, evidenciou práticas reais da comunidade surda venezuelana, como o uso simultâneo de modalidades.

Produção de materiais multilíngues e a construção de uma rede

Como etapa final para certificação no curso, os participantes desenvolveram produtos voltados às demandas das comunidades surdas, incluindo traduções, artigos e criação de sinalários. Esses materiais compõem um livro multimídia em fase de organização e poderão servir de apoio para futuras formações e práticas, especialmente em contextos de fronteira. Além desses produtos, o curso também possibilitou a formação de uma rede de pesquisadores e profissionais interessados na atuação com línguas de sinais não nacionais e na temática da migração, fortalecendo o intercâmbio de experiências e a continuidade das discussões na área.

Thaisy Bentes

Doutoranda em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina. Mestra em Estudos da Tradução pela Universidade de Brasília/UnB. Especialista em Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Graduada em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA. É Professora vinculada ao Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Oeste do Pará-UFOPA (2021-atual).

Carina Merkle

Graduada em Língua Portuguesa e Inglesa pela UFSC, mestra em Educação pela UNIOESTE e doutora em Letras pela UEM. Atualmente é professora na graduação da UTFPR, campus Francisco Beltrão.

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O grupo de trabalho GeoMultLing é dedicado a promover e disseminar pesquisas nos sete eixos da Cátedra UNESCO em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo, explorando áreas cruciais como educação multilíngue, direitos linguísticos, multilinguismo no ciberespaço, políticas linguísticas e geopolítica linguística.

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