Por Leonardo Alves
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A Cátedra UNESCO em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo (UCLPM), o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) e o Grupo de Trabalho Geopolíticas do Multilinguismo (GT-GM) promoveram na manhã de 4 de agosto de 2026 o Seminário de Pesquisa em Política Linguística: Teorias de Gestão de Línguas. O evento ocorreu de forma remota e reuniu pesquisadores e interessados em política linguística para uma exposição da pesquisadora Alena Mikolášková, da Univerzita Karlova, em Praga, República Tcheca, com mediação de Rosângela Morello (IPOL).
Doutoranda em Estudos Germânicos e atualmente em estágio de pesquisa no IPOL, Mikolášková investiga o estatuto contemporâneo da língua alemã no sul do Brasil, com foco nos processos de cooficialização linguística em municípios brasileiros. Em sua apresentação, discorreu sobre os fundamentos da Language Management Theory, teoria desenvolvida por Jiří V. Neustupný e Björn Jernudd a partir de um artigo publicado em 1987 no campo da política e do planejamento linguístico. A pesquisadora observou que a teoria ainda carece de sistematização terminológica em língua portuguesa e propôs, como contribuição inicial aberta à discussão, traduções para os conceitos centrais da abordagem.
Segundo a exposição, a gestão das línguas se desenvolve em dois níveis articulados: a gestão simples, praticada nas interações cotidianas entre falantes individuais, e a gestão organizada, conduzida por instituições como prefeituras, escolas e órgãos públicos. Essa gestão se realiza por meio de um processo de quatro fases, para as quais a pesquisadora propôs os termos percepção, avaliação, elaboração de ajuste e implementação. A pesquisadora ressaltou ainda que a teoria não se limita a fenômenos estritamente linguísticos, abrangendo também dimensões comunicativas e socioculturais que costumam preceder e condicionar intervenções sobre a língua propriamente dita.
Como ilustração do processo, Mikolášková apresentou o caso do município de Santa Maria do Herval (RS), onde a percepção, por parte de professores, de que alunos chegavam às escolas falando apenas alemão levou à introdução do ensino bilíngue a partir de 2009. A pesquisadora relatou também sua recente visita ao município de Antônio Carlos (SC), onde o hunsriqueano é língua cooficial desde 2010. Na ocasião, entrevistou um ex-vereador que participou diretamente da área legislativa envolvida no processo de cooficialização e acompanhou reunião com o prefeito sobre o futuro da língua no município, além de manifestar a intenção de retornar para entrevistar falantes locais. Segundo suas observações preliminares, a herança alemã permanece um elemento relevante da identidade cultural da comunidade, e a língua desponta hoje como o principal veículo dessa preservação, diante do enfraquecimento de outros elementos culturais.
A apresentação foi seguida de debate com contribuições de diferentes participantes. Gilvan Müller de Oliveira propôs a distinção, de inspiração foucaultiana, entre instrumento e dispositivo para qualificar quais atividades metalinguísticas se configuram como gestão de línguas propriamente dita, e sugeriu a substituição do conceito de desvio pela noção de emergência histórica, mais adequada a um cenário linguístico marcado por múltiplos padrões coexistentes. Rosângela Morello acrescentou reflexões sobre o papel da sensibilização e da ampliação de alianças políticas no processo de gestão organizada e sobre a língua enquanto recurso social e econômico.
O evento reforça a necessidade de fortalecer o diálogo entre a UCLPM, o IPOL e o GT Geopolíticas do Multilinguismo e centros de pesquisa internacionais dedicados à política linguística, ampliando o intercâmbio de perspectivas teóricas e metodológicas sobre os processos de gestão das línguas. Entre as possibilidades discutidas para colaborações futuras estão a publicação conjunta de um artigo comparando processos de cooficialização linguística no Brasil e a participação em conferências internacionais sobre gestão de línguas, incluindo o encontro previsto para este ano em Budapeste. Alena Mikolášková seguirá atuando junto ao IPOL durante seu período de pesquisa no Brasil, dando continuidade ao levantamento sobre a cooficialização do hunsriqueano em municípios do sul do país.

Leonardo Alves
Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Pesquisador associado ao Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL).