Por Leonardo Alves e Emanuelli Oliveira
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O multilinguismo é um fenômeno complexo, atravessado por dinâmicas históricas, políticas e sociais que determinam o status, a circulação e a valorização das línguas em diferentes contextos. Nesta série de entrevistas, membros do GT Geopolíticas do Multilinguismo se revezam para dialogar com especialistas de diversas áreas, explorando as interseções do multilinguismo com tradução, direitos linguísticos, mediação intercultural, migrações, internacionalização, informação e comunicação, ensino de línguas, entre outros temas.
O objetivo é reunir diferentes perspectivas sobre as políticas linguísticas, os desafios da preservação e revitalização de línguas, as relações entre idiomas em espaços de fronteira e a influência de fatores geopolíticos na organização do multilinguismo. A partir dessas conversas, buscamos ampliar o debate e fomentar reflexões críticas sobre os modos como as línguas circulam e se transformam no mundo contemporâneo.
Nesta edição, entrevistamos Anna Khalonina, Doutora em Linguística pela Université Paris Cité, onde também obteve seu título de PhD. É professora sênior na Université Polytechnique Hauts-de-France, atuando na área de análise do discurso político e midiático. Sua pesquisa se concentra especialmente na construção e negociação das normas discursivas na esfera pública. Dedica-se ao estudo dos discursos sobre cosmopolitismo, cidadania global e clima, bem como às formas de censura e às estratégias de resistência discursiva.

Alves e Oliveira: Como as normas discursivas moldam o que pode ou não pode ser dito nos contextos políticos e midiáticos, e que papel as instituições (como o Estado, a mídia e os sistemas educacionais) desempenham nesse processo?
O discurso é um espaço complexo, situado no cruzamento entre estratégias individuais/coletivas (quando se diz algo para alcançar um objetivo comunicativo preciso) e determinações que ultrapassam o locutor (quando se diz algo porque se está inserido no que “se diz”, muitas vezes sem sequer perceber). Essas normas são sustentadas por lógicas sociopolíticas, históricas e econômicas. Elas geralmente determinam duas coisas: do que se pode falar e de que maneira se pode/se deve falar. Embora frequentemente invisíveis, por serem implícitas e escaparem à consciência dos locutores, essas normas podem se tornar mais evidentes, especialmente quando são questionadas. Compreender de que maneira as normas discursivas influenciam o funcionamento das instituições exige estudar sua evolução: por exemplo, a questão da igualdade de gênero e da posição das mulheres na sociedade foi, aos poucos, conquistando um lugar importante no discurso público de diversas comunidades discursivas. Nesse sentido, pela maneira como o tema aparece no discurso público, é possível avaliar sua relação com a norma discursiva. Por exemplo, no exame do brevet de 2025, alunos do ensino fundamental na França trabalharam com um cartaz que explicava que as meninas são minoria na formação científica no país, e que é preciso corrigir essa desigualdade. A presença desse documento em uma prova nacional gerou polêmica e o exercício foi considerado por alguns como excessivamente “politizado” ou “tendencioso”. Assim, embora a discussão sobre o lugar das mulheres no mercado de trabalho tenha alcançado o discurso da instituição escolar, o que demonstra um avanço significativo na escala da aceitabilidade, ela ainda não constitui uma evidência nem uma aceitabilidade compartilhada, como revela a polêmica em questão. Caso contrário, não passaria pela cabeça de ninguém questionar a pertinência do exercício, assim como ninguém (normalmente) questiona a necessidade de interrogar os alunos sobre a história da Idade Média, os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial ou as obras de Arthur Rimbaud.
Alves e Oliveira: Quais são alguns dos principais mecanismos de censura no discurso público contemporâneo, e como eles se manifestam de forma diferente em diversos regimes ou ambientes midiáticos?
Para falar sobre censura, é preciso lembrar de uma observação de Eni Orlandi (1994), linguista brasileira e herdeira da primeira geração da análise do discurso francesa: a proibição de palavras ou expressões específicas, frequentemente percebida como a própria expressão da censura, é na verdade uma consequência dela. A censura, em si, não consiste em proibir palavras, mas sim em impedir o sujeito falante, o cidadão, de ocupar certos lugares sócio-discursivos e, assim, de produzir determinados sentidos.
A censura midiática, especialmente em um contexto político baseado em um regime autoritário, tem como objetivo impedir a realização de um debate público (de forma geral ou de uma questão específica). Diversos mecanismos se inscrevem nessa lógica: criação de meios de comunicação sob controle do Estado; pressão econômica sobre os veículos que atuam fora da linha imposta; implementação de uma legislação restritiva (como, por exemplo, o status de “agente estrangeiro” ou de “organização indesejável” atribuído pelo Estado russo, entre outros, a meios de comunicação, jornalistas ou figuras midiáticas influentes); e até mesmo perseguições (demissão, pressão familiar ou violação das liberdades individuais) com o objetivo de forçar os indivíduos e organizações a abandonar suas atividades, seus discursos ou a fugir do país.
Alves e Oliveira: A linguagem pode ser usada como forma de resistência à censura? Quais são algumas das estratégias discursivas adotadas em contextos altamente controlados ou autoritários?
Sim, claro. As práticas de resistência discursiva, especialmente aquelas voltadas à censura, são hoje amplamente estudadas. Em um artigo recentemente publicado (Khalonina, 2025), analisei o papel dos neologismos nesse tipo de resistência, a partir do exemplo do termo russo “mogilizatsiya” (uma aglutinação que combina as palavras “mobilização” (militar) e “tumba/túmulo”, designando, portanto, literalmente, uma “mobilização que mata”), utilizado por organizações militantes contrárias à guerra na Ucrânia.
Trata-se, assim, ao mesmo tempo de denunciar os estragos da guerra e de se distanciar do discurso promovido pelas instituições estatais, convocando os cidadãos a “defender a pátria”. No entanto, o neologismo é utilizado apenas em enunciados que participam da criação de uma identidade militante dos locutores. Em outros contextos, nos quais se trata de informar os cidadãos ou ainda de se dirigir àqueles que estão afastados da linguagem da oposição, é o lexema padrão (“mobilização”) que é empregado. Pode-se, assim, notar que, qualquer que seja a estratégia linguístico-discursiva, uma resistência se produz necessariamente em interação com o discurso dominante.
É o princípio do dialogismo que se aplica, inclusive nesse tipo de caso em que os discursos estão, à primeira vista, em total oposição. A resistência “trabalha com” o discurso dominante e censurador: ela o leva em consideração para poder reagir a ele; ela se apropria de elementos para ressignificá-los, ou seja, conferindo-lhes um novo potencial pragmático, como mostraram Judith Butler (1997), e mais tarde Marie-Anne Paveau (2019), que enriqueceram o quadro conceitual da análise do discurso; ela às vezes se conforma ao paradigma dominante para atingir um público conquistado por ele.
Outras estratégias que pude observar (e que apenas perpetuam uma longa tradição) consistem em “disfarçar” as mensagens de resistência em gêneros e meios destinados a outros usos: cédulas de dinheiro, etiquetas de preços em supermercados, cartões de felicitações enviados por aplicativos de mensagens. Todos esses objetos, tenham eles uma existência material ou apenas digital, têm vários pontos em comum: seu caráter anônimo e, ao mesmo tempo, sua ampla exposição pública, especialmente devido à forte circulação ou, no contexto digital, à sua viralidade.
Por fim, o humor, inclusive em suas formas contemporâneas, como o stand-up, possui um potencial de resistência bastante significativo, permitindo, muitas vezes por meio de alusões sutis, estabelecer uma troca com o público (presente no palco, mas também eventualmente alcançado pelas redes sociais do artista) sobre temas sensíveis ou censurados.
Alves e Oliveira: O que é a autocensura discursiva e como ela opera em ambientes politicamente restritivos? Como podemos distinguir entre silêncio estratégico e silêncio imposto?
A autocensura, isto é, uma limitação discursiva que um locutor se impõe, é um termo considerado impreciso por alguns/as pesquisadores/as, em especial Eni Orlandi. De fato, quando alguém se proíbe de falar, é devido a uma restrição imposta externamente, de forma coercitiva, ou seja, uma censura. O silêncio que daí resulta pode assumir diversos significados: não se fala (ou não se fala como se gostaria) para se proteger e por medo de perder definitivamente o acesso à fala pública; para manifestar sua não adesão à narrativa imposta; para não contribuir com a circulação de posicionamentos considerados injustos, tendenciosos ou perigosos.
Estudar os silêncios e os não ditos é um exercício tão fascinante quanto difícil: é preciso se atentar para a maneira como o silêncio é construído, questionar-se sobre do que ele é feito. O não dito é sinalizado por uma pausa, uma hesitação, um vazio ou algum outro sinal específico? Os elementos (verbais, paraverbais ou icônicos) permitem significar o silêncio? É assim que muitas vezes se pode reconhecer um silêncio estratégico: ele é oferecido à escuta como tal, é uma ausência que fala àqueles que estão dispostos a ouvi-la.
No entanto, o silêncio imposto e o silêncio estratégico frequentemente caminham juntos. Em um regime político que impõe censura pública, certos temas, discursos, palavras ou imagens podem estar sujeitos à proibição de circulação. Sua difusão silenciosa (que indica sua presença, mas no não dito, como no caso de um cartaz erguido por um(a) manifestante com uma palavra censurada, como “guerra”, representada por um número de asteriscos correspondente ao número de letras) constitui uma forma de submissão à restrição ou de autocensura (aceita-se não dizer a palavra tal como é), mas que nada mais é do que um ato de resistência (faz-se ouvir a palavra “em silêncio” para reafirmar a liberdade de dizê-la e, ao mesmo tempo, denunciar o ato de censura).
Alves e Oliveira: Como as normas do discurso público diferem nos diferentes contextos europeus? Há padrões ou tensões que você considera particularmente relevantes?
As normas do discurso variam de acordo com diversos fatores que podem, de modo geral, ser reunidos sob o contexto. Contexto situacional, relacional, cultural: várias normas podem coexistir em uma mesma comunidade, ou até em um mesmo falante, como demonstram as pesquisas em análise do discurso contrastiva (von Münchow, 2021).
Essas normas podem ter um caráter mais ou menos local, caracterizar uma sociedade em comparação com outra, ou ainda ser transnacionais e translinguísticas. A título de exemplo, o discurso anti-imigração tem se difundido cada vez mais em muitos países europeus. Na Alemanha, na França e na Itália, ele representa um dos fatores dos recentes sucessos eleitorais dos partidos de extrema direita (Fratelli d’Italia em 2022, Rassemblement National em 2024, AfD em 2025). Ele é, de fato, alimentado, em parte, por matrizes ideológicas comuns, que circulam para além das fronteiras nacionais, como mostram os estudos que analisam a “carreira” de fórmulas como Grand Remplacement, Sostituzione Etnica e Großer Austausch[1] nesses três países, que, no entanto, têm cada um um passado e um presente muito distintos no que diz respeito ao acolhimento de populações em movimento.
A crescente audibilidade do discurso contra a violência cometida contra as mulheres (impulsionada, em particular, pela circulação global do #MeToo) constitui outra matriz comum a diversas culturas discursivas. No entanto, em cada uma delas, esse discurso segue um caminho específico, que depende, entre outros fatores, de diferentes elementos desencadeadores e de sua mediatização. Na Itália, o assassinato de Giulia Cecchettin, coincidindo com o lançamento do filme C’è ancora domani (Cortellesi, 2023), foi analisado como catalisador de um amplo movimento social e de uma convergência discursiva que teve repercussões políticas e legislativas sobre o tema (Trespeuch-Berthelot et al., 2023). Na França, a cobertura midiática do julgamento Mazan foi considerada representativa de uma evolução progressiva na imagem do estupro contra mulheres (Chauvaud, 2024). Observa-se, assim, que evoluções semelhantes no nível de aceitabilidade dos discursos podem ocorrer com base em matrizes comuns, mas que os percursos específicos desses discursos dependem de normas mais locais, da conjuntura política, dos dispositivos de midiatização, etc.
Alves e Oliveira: O que podemos aprender ao comparar como diferentes sociedades regulam, negociam ou resistem a narrativas dominantes e a constrangimentos discursivos?
Essas três atividades podem nos informar, em termos gerais, sobre a maneira como as sociedades são estruturadas em seu aspecto sócio-discursivo. As negociações das normas, ricas em metadiscurso, revelam uma coexistência, em um mesmo momento, de múltiplos posicionamentos contraditórios e nos permitem também compreender como evoluem os níveis dos discursos: qual deles está ganhando maior aceitabilidade, qual está se marginalizando ou se mantendo apesar da crescente pressão de formações discursivas concorrentes. Essas análises são fundamentais para compreender que a linguagem não é um simples reflexo das práticas sociais, mas o seu cimento, e que o discurso não é um vidro transparente, que deixa ver o conteúdo “puro” das interações comunicativas, mas sim uma espessa camada de significados, marcada por traços de outros discursos, atravessada por memórias evocadas e resultante de confrontos, relações de força e convergências entre os falantes.
[1] As expressões Grand Remplacement (francês), Sostituzione Etnica (italiano) e Großer Austausch (alemão) correspondem a fórmulas que circulam em discursos anti-imigração na Europa e remetem à chamada “teoria da substituição populacional”. Essa teoria conspiratória defende que haveria um processo deliberado de substituição das populações nativas europeias por populações imigrantes, em especial vindas da África e do Oriente Médio. Embora adaptadas a diferentes contextos nacionais e partidários, essas expressões compartilham uma mesma matriz ideológica transnacional, usada para mobilizar o medo do “outro” e legitimar políticas restritivas à imigração.
Referências
BUTLER, J. Le pouvoir des mots: discours de haine et politique du performatif. 3. éd. Paris: Éditions Amsterdam, 2017 [1997].
CHAVAUD, F. Procès de Mazan: le viol des femmes dans l’opinion publique de l’époque moderne à nos jours. The Conversation, 2024. Disponível em: https://theconversation.com/proces-de-mazan-le-viol-des-femmes-dans-lopinion-publique-de-lepoque-moderne-a-nos-jours-239573. Acesso em: 9 jul. 2025.
CORTELLESI, P. C’è ancora domani. [Filme]. Itália: Wildside; Vision Distribution, 2023.
KHALONINA, A. Lutter avec et contre les mots de l’adversaire: un néologisme militant dans les discours de l’opposition russe à la guerre en Ukraine. Neologica, n. 19, p. 119-139, 2025.
MÜNCHOW, P. von. L’analyse du discours contrastive. Limoges: Lambert-Lucas, 2021.
ORLANDI, E. Les formes du silence. Paris: Éditions des Cendres, 1996 [1994].
PAVEAU, M.-A. La resignification: pratiques technodiscursives de répétition subversive sur le web relationnel. Langage et société, v. 2, n. 167, p. 111-141, 2019.
TRESPEUCH-BERTHELOT, A.; SALTIEL-RAGOT, E.; POLLACK, G.; LE QUANG, J.-L. Images, lettres et sons. Revue d’Histoire, v. 160, n. 4, p. 173-183, 2023. Disponível em: https://doi-org.ezproxy.uphf.fr/10.3917/vin.160.0173. Acesso em: 8 jul. 2025.

Leonardo Alves
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina na linha de pesquisa de Linguagem, Política e Sociedade. Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Santa Cruz do Sul.

Emanuelli Oliveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina. Licenciada e bacharela em Letras – Língua Francesa e Literaturas e Graduada em Secretariado Executivo pela Universidade Federal de Santa Catarina.
